sábado, 5 de dezembro de 2009

Luanda is a Dog Ville

Vou parar por este ano. Parar de postar porque saio de férias, saio de Angola e da Africa por uns dias.

Saio com graça e agraciada, depois da desgraçada estada de 4 meses em Dog Ville_ Luanda.

Se pudesse sairia como a propria Grace.

Pra quem acha que to falando em côdigos, estou me referindo ao filme Dog Ville do Lars Von Trier. Grace é a personagem principal da trama.

Sou estrangeira numa terra alheia e mais do que antes pareço compreender essa grande obra cinematografica.

Uma excelente dica de filme para as férias, Não esqueçam de ver a continuação, o segundo filme: MANDELEY.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Policia de trânsito_ Nem tudo esta perdido

Essa semana em meio a um louco e tresloucado engarrafamento numa das via que sai de Luanda vai para o interior, depois de passar por Cacuaco algo tive uma visão que fez necessário o proferimento de um velho jargão: nem tudo está perdido.

Em meio a visão do inferno de sempre (dos inúmeros carros tentando chegar, as tentativas alucinadas dos motoristas de passarem pela direita ou pela esquerda, das obras e buracos e caminhoes e buzinas, e os candongueiros tentando passar por aqui e acolá... aquela loucura que parece indízivel para quem não conhece e nunca viveu e comun e quotidiana aos tantos que nasceram nisso), sob uma certa visão turva da poeira das obras da estrada estava o policial de colete laranja e cap na tentativa de controlar a fila do engarrafamento.

Como tantos, um certo carro tenta passar pela direita de todos e é parodo pelo Sr, polícia. De longe só se vê que o polícia tira energicamente a chave do carro, provavelmente para evitar que o motorista fuja, o que é muito comum em situações como estas (afinal as multas são altíssimas).

De dentro do carro sai rapidamente um homem vestido de militar e os dois discutem energicamente com o policial. O policial não lhe dá ouvidos, continua a controlar o transito, até que este lhe entrega a carta de condução em troca da da chave do veículo.

Passamos os Senhores, não sabemos se o infrator levou multa ao final, porém acreditamos que este policial parecia fazer seu trabalho direito. Inclusive não direcionando tratamento diferenciado ao condutor, mesmo sendo ele um militar.

Congratulations Mr. Polícia!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Guarda-Chuva

No turbilhão do que chamei de esquizofrenia de grau 3*, essa que nos faz ler tudo por causa da solidão, encontrei uma pergunta que me intrigou: (estava no desopiler da Rosi)

Alguém conhece algum guarda-chuva que proteja a cabeça contra "quando o mundo desaba"?


E eu aqui na áfrica que nunca chove fiquei a me perguntar:

Alguém conhece um guarda-chuva que proteja a cabeça da angústia de que "tudo está suspenso, parece que vai cair no proximo segundo, mas não cai?"

E não adianta me mandarem derrubar de uma vez porque no fundo ninguem quer que caia.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Português d'Angola



E eu que pensava que se falávamos português falávamos todos a mesma língua.

Nada! cada dia tenho que reaprender a usar o português.

O Humpty Dumpty passou por aqui e mudou umas coisas. Ou pelo Brasil, já que o portugues daqui dizem ser mais parecido ao de Portugal.

Vejam...E se quiserer ler em angolês lembrem de ler o A sempre Á (com acento bem aberto, que vou usar aqui para ilustrar o som)

[p.ex. Luãnda não existe, o nome da capital é Luánda] [a palavra não é lida náo]

Casa de bánho é onde se faz xixi, banheiro não existe.

Café e chá se toma na chávena, ninguém sabe o que é xícara.

Se pedir sumo de ananás, beberás um ótimo suco de abacaxi.

Refrigerante quase ninguém sabe o que é, mas se pedir gazôsa trazem logo um refrigerante.

Viatura não é carro de polícia, qualquer carro é uma.

Muámba não é nada ilegal, nem vem do Paraguai, é uma comida feita com galinha

Ônibus não existe, só há cándongueiro e trem é cómboio

Sítio não precisa ser na roça, nem na intenet, qualquer lugar é sítio, e se for na roça se chamará Quinta.

Bazar não é lugar de vender cacarias, é ir-se embora (vou bazar), e nem é gíria, todo mundo fala assim

Bué é gíria, mas todo mundo sabe que quer dizer muito. O dia que chove Bué alaga a cidade inteira.

Miúdo e miúda é qualquer criança ou jovem, pode até ser grande e forte.

Quem quiser lembrar-me de mais algumas palavras por favor enviem contribuições.

domingo, 22 de novembro de 2009

Parque do Kissama, turismo em Angola

Como já falei muitas vezes aqui, em Angola encontramos muitas belezas naturais.

*Obviamente na capital Luanda, dificilmente encontraremos exemplares do que poderiamos chamar beleza, dado as caraterísicas peculiares de uma grande cidade africana, com suas desordens demográficas, sanitárias, de distribuição de renda, de valores globalizantes e sabe-se lá mais quantos fatores que nos fogem a compreensão e que contribuem para que a tal cidade possamos atribuir muitos predicados, menos o da beleza.

Longe de Luanda, há uns 100 Km começa uma grande reserva natural chamada Parque Nacional do Kissama. 

Estive lá sábado passado e fiquei encantada.

Dentro do parque há um restaurante onde se pode comer a comida típica Angolana. Comidinha caseira bem parecida com a galinha de panela e a polenta da minha mãe, que eu comia no Brasil quando era criança.

Coisa básica e boa, funge de milho com galinha de muanba, banana da terra, batata doce, ensopado de peixe a kululu e feijão com óleo de palma.Uma delícia! e o melhor é que há uma parte externa no restaurante onde se pode apreciar a vista.

Um lindíssimo vale verde e úmido, cheio de vida. Da varanda sente-se o cheiro da brisa de terra úmida do Rio Kuanza que se vé longe lá abaixo, e os olhos se enchem com o colorido dos pássaros, das flores e borboletas. Com sorte, dá até pra visualizar macaquinhos a correr pelas árvores e algumas girafas ou veados ao longe.

O complexo turístico tambem disponibiliza guias e passeios dentro do parque e tem chalés para hospedagem e área para camping.

A pena é que tudo custa bem caro.

Apesar dos estrangeiros que estão em Angola já estarem acostumados com os preços abusivos (comparados com a Europa e com o Brasil p.ex), e não deixarmos de visitar locais assim, ao menos uma vez para conhecer, dificilmente iremos lá duas vezes. Enquanto se fosse barato poderíamos ir todo final de semana.

Isso vale para muitos outros lugares de Angola, são caríssimos mesmo quando são simples_ como é o caso Kissama, que apesar de ser no paraíso serve comida caseira, que todo angolano conhece e come todo dia (exceto os que não conseguem sequer ter comida).

Pros extrangeiros ainda tem sempre os inconvenientes policiais  pedindo documentos e verificando nossas condições de estada nos lugares. Todo estangeiro que está em Angola há algum tempo já se viu forçado a ter que pagar uma gasosa prum polícia lhe deixar em paz ao menos uma vez.

*Isso quando não temos que voltar porque simplesmente os caras não nos permitem o acesso. Pior ainda quando nos levam a departamentos policiais para explicar porque paramos tirar foto dum predio ou praia. É estranho, mas acontece, é como se fossemos espiões a traficar informações.

Pros Angolano tambem é difícil passear e viajar, porque além de tudo ser caro e as familias serem maiores (o que encarece ainda mais), há poucos lugares onde se pode ir de candongueiro (ônibus) ou de comboio (trem). Nos sítios ou se vai de viatura (carro) particular ou não se vai.

Informaçoes sobre o Kissama: 244 925 314 949
 O site estádesatualizado:http://www.kissama.angoladigital.net 


sábado, 21 de novembro de 2009

Um blog sobre Africa

Pra quem lê meu blog já deve ter visto que escrevo cá minhas coisas e também sigo ao lado, à direita na tela, coisitas que outrem escrevem sobre Angola.

Um dos blogs que mais gosto e admiro é o Diário da África. É de uma pessoa que sequer conheço e que além de escrever bem, consegue contar seus dias bons ou nem tanto nesse continente.

Consegue ser conciso (bem mais que eu), imparcial e realista. Por vezes é até divertido, porque tem senso de humor diante de fatos quotidianos, como quando conta os episódios no aeroporto 4 de fevereiro, que é assim mesmo, afinal quem vive isso sabe. Ou quando fala da agressão que sofremos nós os "brancos estrangeiros" nas ruas.

Nunca enche de muita opinião nos posts e nem está embebido de idéias pré-concebidas como "ah angolano é preguiçoso", como já vi nuns blogs de gente que vem aqui tentar mudar o estilo de vida das pessoas; ou outros blogs que trazem informações mas estão tão embebidos de um "bom samaritanismo" que nos fazem pensar que os Angolanos, "ó coitados" são ovelhinhas perdidas nessa selva.

Afinal O blog é ótimo e foi injustamente criticado por alguem, brasileiro (que nunca veio à Angola) porque teria generalizações bobas e infantis e porque só faz criticas críticas. ("as críticas não acabam nunca").

POR FAVOR!!! PODE ALGUÉM SER CRITICADO PORQUE FAZ CRITICAS DEMAIS?

E pior: diz que se ele fosse Angolano estaria chateado com o blogueiro.

Imaginem! tem cabimento uma coisa dessas??? Se alguém critica o país que você nasceu, porque tem um olhar crítico e consegue perceber as "merdas" que ocorrem ali, o cidadão vai ficar chateadinho porque tão criticando o país que ele nasceu.

Isso não é argumento. GOOD, isso é FREAK SHOW.

Os argumentos contra o blog seguem e são tão bizzaros que valeria uma analise lógica detalhada da invalidade e da falaciosidade de cada um. Para ver a crítica na íntegra:  clique aqui

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Imbundeiros em Luanda

Já é mes de novembro. Ando por estas paragens desde agosto e já se foi o cacimbo. O sol escaldante do verão traz a chuva, o verde e esse calor quase insuportável. Os olhos não vêem mais do que com o cacimbo porque tendem a fechar com tamanha luz. A sensação fisica é de que se está dentro de uma gigantesca sauna em forma de cidade.
No cair da tarde, sorrateiro e benevolente, chega um ventinho tão agradável e descabelante que nos faz quase agradecer aos céus pelo fim de mais um dia e pelo refrescor de fim de jornada.

Ah Luanda! essa capital com nome de mulher, tão agradável e prostrada femea, a deixar que diariamente lhe abram valas, lhe perfurem canteiros, lhe introduzam cimento e ferro.

Ah agradável mãe, que deitada à beira do mar agracia os filhos com um sopro fresco em dia de sol, e nem parece reclamar as dores que traz no ventre e os barulhos de buzina que lhe ferem os ouvidos.

Ah querida amante de negros e brancos, prostituta de ontem e de agora, abriu as pernas a portugueses e a nativos e agora, gangrenada, continua a servir: chineses, brasileiros... e a toda gente de qualquer canto por poucos vinténs e por algumas regalias a seus filhos queridos.

Ah mundo estranho. Tanto lixo, tanto esgoto, tanto cancro no leito e na pele de antiga cidade que de perto ainda tem lá seus traços de dama educada e fina de sociedades menos bizaras e brutas como as nossas de agora.

Ah Luanda de outrora, imagino-te com o mesmo mar e o mesmo ventino de final do dia. Sem buzinas, sem assaltos, sem britadeiras e sem ferros e concreto. Será que habitavam Imbundeiros nessa senhoras?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Choveu em Luanda

Depois do cacimbo, depois da chuva, depois de 3 meses aqui. Agora tudo está iluminado e verde.
Luanda Antes e Depois... da chuva

Antes




 Depois

Antes;
o temporal estava a se formar e o céu ficou escuro, dava pra ver a chuva ao longe que se aproximava


3h da tarde e veio a noite
 




desabou uma chuvona


 

 as ruas ficaram alagadas


 

Daí veio o Sol, e aquela Luz de céu varrido



 e daí em diante tudo ficou verde

Compare o Antes e Depois
da Embaixada dos EUA
Antes...



Depois...




Milagres das águas
A metafísica das chuvas.


domingo, 8 de novembro de 2009

Pôr do Sol Africano

Um dos maiores espetáculos da terra.
O céu pequeno ante o mar,
e o mar é nada ante a força do astro rei.
O céu rasgado em luz,
e a esfera vermelho-alaranjada a esconder-se, delicadamente,
sob os traços horizontais acinzentados do gigantesco oceano Atlântico.
Devagar como quem respira, morre o sol como se deitasse a sesta.




PS: O Álvaro de Campos disse que não há mais metafísica no mundo senão chocolates e o Alberto Caeiro, que era mais radical, disse que não há metafísica alguma, o que há são os sentido, o Ricardo Reis dizia que mais vale ouvir correr o rio e o vento. Salve os poetas Pessoanos. Salve a natureza, o resto...é nada.
Nem chocolates se comparam a esse pôr do sol. É compreensível que todos os deuses sejam feitos de luz. É compreensível que nossos antepassados adorassem esse Deus. É perfeito que a criança de Saint Exupery, quisesse repetir, com um simples afastar da cadeira, tantas vezes o espetáculo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Revista Caras Angola


É uma das coisas mais bizarras que já vi. Não que as Caras do resto do mundo não seja, já o sabemos. A do Brasil é o "Ó", cheio de mulheres oxigenadas e siliconadas a exibirirem seu sorizos duros emoldurados pelos lábios tesos de butox, o bronzeado artificialézimo e o discurso sempre igual: as solteiras a afirmarem que são felizes e autosuficientes mesmo sozinhas e as casadas a mijarem nas calcinhas ao falar do marido, o grande prêmio de suas vidas.

A Caras de Angola que eu tive o desprazer de ler na sala de espera do dentista falava da belíssima história de amor do cantor Anselmo Ralf (Cantor Angolano romântico).

A história era simples e cheia de jargões preconceituosíssimos de familia, propriedade e romantismo barato. O tal conheceu a esposa através de um amigo, falaran-se durante 1 mês por telefone (já que internet aqui ainda é coisa de outro mundo) e então se conheceram, casaram-se e estão felizes para sempre. Agora ela é a dona do indívíduo e vive num condomínio de luxo no Talantona, que tem até jardim. Como se não bastasse ser a dona do bebezão choroso e famozíssimo, que só aparece de óculos escuros pra não perder a pompa de astro, eles também tem uma filhinha e formam o ideal idealíssimo: a família feliz.

A fulana esposa que é tão bela como o resplandescer da luz da lua, segundo o texto da revista, tem os cabelos alisadíssimos (como toda negra "rica" Angolana),e apesar sa roupa preta de setim brilhoso está visivelmente muitíssimo acima do peso. Complementa a beleza invejável os seus estupendos olhos azuis que lembram o mar de uma lente de contato ímpar, tão falsos quanto as edificações morais oferecidas pela revista.

Já o garanhão Angolano, uma flor de formozura, com seus óculos escuros e camisa aberta no peito, a exibir parte de uma rosa tatuada em vermelho completa o charme pessoal com um sorizo misterioso de um ligueiro prognatismo no queixo.

Ai, deus me perdoe o veneno. Dessa vez não me aguentei. O cacimbo é fumaça de criolinha e está a sair das minhas ventas.  As músicas do gajo é só ver no youtube:  http://www.youtube.com/watch?v=OGuEUIBfJC8&feature=related

sábado, 31 de outubro de 2009

Porto Amboím_ Angola_ Futuro paraíso turístico. Hoje uma praia paradisíaca e um pier antigo.


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

AngolaGate

Está em todos os jornais. É uma contradição, eu heim! No final das contas, ainda bem que há versões diferentes até pra história atual. Mas que é muito esquisito é. Os heróis de um país, foram ajudados por pessoas que são julgadas como criminosas, justamente por terem ajudado esses a se tornarem heróis. A guerra é um dos fenômenos mais intrigantes da espécie humana.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Detalhes de Angola e nós, seus atuais habitantes

Passados os piores dias de cacimbo, mesmo que minhas visualizações continuem e sempre continuarão parciais e turvas, há coisas que me vao sendo mais claras. Com a brincadeira do POST anterior, penso que consegui ilustrar algumas “figuras” luandenses. Entretanto gostaria de dizer palavras sobre minhas impressões das pessoas que aqui vivem e trabalham. Primeiro, há diferenças cruciais entre os postos de trabalhos dos estrangeiros e dos nativos, o que já era de se imaginar, pois o país está se restabelecendo e governo e empresas multinacionais ditam regras e comandam as atividades. Comandar não significa mandar. Quem manda são os angolanos mesmo, na voz do governo e dos poucos agraciados empresários e investidores aqui nascidos e fora formados, como é o caso da filha do presidente que é a expressão do poderio empresarial angolano e que não limita sua fortuna a Angola, tem parte em bancos em Portugal. Excetuando os pouquíssimos agraciados por oportunidades e certos “dons” para lidar com as finanças a maioria do povo angolano (da capital) vive de prestar serviços básicos e de vender tudo e qualquer coisa que alguém possa comprar. Nas cidades do interior e nas comunidades rurais sobrevivem da agricultura, de pouco comércio entre si, e da máquina do estado, responsável pela maioria dos empregos formais. O estado se mantém, majoritariamente, das parcerias com seus investidos internacionais sobretudo no setor do petróleo e de diamantes. Por outro lado investe recursos oriundos daí nas áreas de agricultura, infra-estrutura, tecnologia e desenvolvimento, que trarão mais progresso (e consequentemente mais cumbú=dinheiro) à nação. Tambem investe um bocadinho sim em educação, saúde, saneamento básico.... como em qualquer país em desenvolvimento.

Na área de exploração de petróleo quem extrai e desenvolve todas as tecnologias para encontrar e retirada do mineral são umas multinacionais (TOTTAL e outras) e quem refina e distribui pelo país é a estatal Sonangol. Todos os postos de abastecimento de combustível no país são do estado e o combustível é muito barato. _ encher o tanque de óleo num carro 4X4 custa uns 30,00 reais_ Contudo o abastecimento pelo país ainda não é muito eficaz. Na capital há poucos postos de abastecimento, se considerarmos o tamanho da cidade e a quantidade de carros, e sempre há que se fazer fila para abastecer os carros. O tempo médio que se fica na fila para abastecer é de 1 hora. No interior há locais que os postos ficam dias sem combustível, porque quando recebem acaba muito rapidamente e tambem porque como a maioria das estradas ainda está avariada (ou em reforma) e há muito engarrafamento, existe dificuldade para os caminhões tanque chegarem com o produto. O mercado paralelo da gasolina e do gasóleo (óleo) estabelece-se e salva quem precisa se locomover e tem o tanque vazio. Há pessoas que passam horas e horas em frente aos postos com galões (bidões) de 20 ou 30 litros a espera que o posto abra para comprarem óleo ou gasolina e depois revenderem. Nas regiões de fronteira, como por exemplo a fronteira sul com a Namíbia, onde o combustível é caro, há um eficiente tráfico a conta-gotas. Em contrapartida há um tráfico contrário, da Namíbia para Angola, de tudo o resto, já que  em Angola é sempre caro demais. Pelo que dizem, as polícias aduaneiras de ambos os países fazem vista grossa e ganham suas gasosas (nome dado ao suborno que recebem para tomar alguma bebida=gasosa), até porque sabem que estão a contribuir para que as pessoas da região possam continuar com suas vidas e que o mundo siga seu curso.

Com a reconstrução do país surgem milhares de novos postos de trabalho, especialmente nas construções das estradas, pontes, trilhos, hospitais, escolas...e inflama um novo vigor comercial devido ao pequeno poder aquisitivo que cada cidadão recupera ao ter um salário. A efervescência comercial se acentua ainda mais com a presença dos estrangeiros que além de terem maior poder aquisitivo, também usufruem dos serviços hoteleiros, imobiliários, aluguéis de carros, passagens aéreas, contratações de guias e motoristas e, inclusive, contratam pessoal para serviços “menos braçais”, como contabilistas, atendentes, auxiliares, secretárias.

É muito diferente a relação de cada grupo estrangeiro com o país. Como é de se imaginar, igual a qualquer país africano, há gente expatriada de todos os tipos a exercer inúmeras funções. Há muitas ONGS, há médicos, há professores, que vem para projetos e há os empresários que vem pura e somente pela grana. De um modo geral (de olhar de cacimbo) há uma diferença muito grande entre os estrangeiros que vivem na capital e os que vivem no interior. No interior costumam ser mais integrados à vida das cidades e das pessoas, até porque são reconhecidos por prestarem algum serviço e também porque trazem um certo progresso para o lugar. Na capital não são tão bem recebidos, pois são vistos como exploradores. Pessoas que vêm roubar os postos de trabalhos dos Angolanos (o que não é de todo mentira) e mesmo que usem serviços e gerem empregos, usufruem de uma gama de “privilégios” que deve gerar “revolta” aos nativos. que os servem e os obedecem. O pior é que a hostilidade acaba se tornando viciosa, pois nativos são hostis ,  estrangeiros retribuem, e assim segue o eterno bate e volta. Além disso, os estrangeiros que estão aqui estão para “ditar”, ou seja, para determinar regras, horários de trabalho, normas e esquemas que façam as coisa funcionar. Mesmo as Ongs ou os médicos e os professores, vêm dizer como comer, como cuidar do lixo, vêm ensinar. Todos vem com suas “verdades” de um “outro mundo” que funciona melhor. As novas gerações parecem mais abertas ao novo. _A facilidade que têm com as línguas lhes auxilia na comunicação e lhes dão oportunidades de emprego e crescimento, a maioria já nasce falando português e mais uma língua africana e inglês ou francês conforme a proximidade com as fronteiras sul ou norte._ Já as gerações mais antigas resistem mais às mudanças, apesar de terem tido desde muito a presença dos portugueses e depois dos cubanos e dos soviéticos no país, experiencias estas que em tudo parecem ter sido desagradáveis, pois lembram sobretudo da guerra. Agora, os extrangeiros ão de todos os cantos do mundo, inclusive muitos brasileiros, e tal como antes, em pareceira com o governo continuam a explorar, e também a gerar emprego, a trazer desenvolvimento enfim, modificar a essa terra e essa nação que há muito já não é a mesma.

É especial o caso dos chineses presentes em Angola. Há chineses por todos os cantos do país. Quase todas as placas tem inscrição em português e em caracteres chineses. Em geral estão aqui a fazer o mesmo que a maioria dos brasileiros, obras e construções, especialmente das estradas. Contudo, a parceria Angola-China não é com empresas, como é no caso do Brasil, mas com o governo Chinês. Por isso, há chineses engenheiros e peões de alto nível, a gerenciar obras, e há chineses fazendo serviços básicos ao lado dos angolanos recrutados para tais obras. Pelo que contam, nos acampamentos chineses do interior, que estão por toda parte do país, há chineses prisioneiros oriundos das cadeias chinesas que vêm à Angola prestar trabalhos para o estado chinês. Eles trocam dias de trabalho pela pena, mas não na China e sim em Angola. Se há presidiários mesmo, eu não sei, é o que dizem. Porem o que torna a presença dos chineses bastante especial e peculiar em relação aos outros expatriados é o grau de interação que conseguiram com o país e com as pessoas de Angola. Há chineses vivendo nos bairros pobres da capital e das cidades do interior. Há chineses casando com angolanas e tendo filhos negros-orientais (com certeza serão um novo tipo de mestiços, uma nova etnia local). Estão nas praias a comer espetinho de lula e tomar cerveja , estão nas feiras populares junto com os Angolanos. São um tipo de estrangeiros completamente adaptados e em interação com a população local.

Os brasileiros também são bastante adaptados e em geral bem recebidos, graças à TV brasileira  e as novelas que os angolanos adoram tanto quanto os brasileiros. Contudo não chegam aos pés dos chineses, os  brazucas que vivem na capital, em sua maioria (eu não me incluo nesses) vivem num lugar retirado do centro da cidade, em um bairro novo (Luanda Sul), sem lixo, sem, sem sujeira, sem prédios destruídos, sem pedintes, sem musseques, sem falta d'água ou luz, e com muitos guardas, muros e grades. Há ali um shopping, com supermercado, salão de beleza e umas duzias de lojas caríssimas e nada se parece com a África. Os trabalhos desses, ou são novas construções nesta região mesmo, ou são pontes e estradas e outras tantas edificações em outros pontos da capital onde passam apenas o dia ou no máximo algumas horas dele. No interior também há alguns brasileiros a viver e fazer outras coisa que não construção civil. Ainda na capital há brasileiros a viver no centro e trabalhar com informática, comércio, saúde, educação...estes interagem mais, na medida do possível.

Entre os angolanos há uma única diferenças étnicas que eu gostaria de enfatizar: Os emergentes são mestiços. Os mais negros ocupam funções básicas, transporte, segurança, limpeza, arrumação, obras, venda de produtos na rua, etc etc. Os menos negros (mestiços), ocupam cargos de secretárias, contabilistas, despachantes vendedores de lojas oficiais. A única exceção a tal regra me parece ser a categoria dos políticos. Esses são de todos os tipos, há inclusive políticos brancos descendentes de portugueses. Fora os políticos, os que ficam no sol todos os dias, os guardas, os policiais, as empregadas, os vendedores ambulantes, os viventes dos musseques são a maioria negro de várias etnias, porém sem qualquer clareamento na pele por qualquer mestiçagem. Os únicos brancos a viver nos musseques parecem ser  os albinos. Inclusive esta é uma peculiaridade genética bastante comum em angola. Há pelo menos uma criança albina em cada grupo de crianças que se visualiza a jogar futebol, ou nos grupos a ir para a escola. Imagino que devem sofrer com o sol, agora que o cacimbo está a passar, já se consegue perceber como é forte a claridade e o calor. 

domingo, 11 de outubro de 2009

Classificação dos habitantes de Luanda.

Passados os piores dias de cacimbo, arrisco uma classificação dos viventes dessa cidade. Antes sugiro que compreendamos que toda a rotulagem que uso aqui seja compreendida numa taxonomia maior e aceita cientificamente em todo o mundo desde séculos e séculos... AMÉM. Está escrita numa antiga enciclopédia chinesa e foi resgatada por Jorge Luis Borges e depois por Foucault. Lembrem-se:
Os animais se dividem em:
“a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) amestrados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cachorros soltos; h) incluídos nesta classificação;
i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com pincel finíssimo de pelo de camelo; l) etcétera; m) que acabam de quebrar o jarro; n) que de longe parecem moscas”.

A taxonomia geral de Luanda, segundo eu que vos escrevo poderia seguir a seguinte divisão:

A) os que usam panos coloridos e que são mulheres;
B) os que são guardas;
C) os que usam abotoaduras nas camisas;
D) os menos negros com muito dinheiro;
E) os brancos vindos de outro país;
F) os chineses;
G) os lavadores de carro;
H) os políticos;
I) os que se enquadram nas classificações C, D e H;
J) os atingidos por minas terrestres;
L) os que cagam na rua duarante o dia;
M) os que foram à fila para gasolina;
N) o presidente da repúbluca;
O) os que se encaixam na classificação A e trocam dinheiro na rua;
P) os que sempre respondem “obrigado”;
Q) os albinos;
R) os que ainda não sabem que tem sida.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Dia de sol, dia de sàbado

Um rapazote sai dum predio a gritar em pleno sábado ali pelas 3 da tarde.
_O gringo! Tu é estangeiro que eu sei! Eu te conheço, ingrato!

E foi se aproximando até que chegou muito perto com os insultos. Paramos, falamos ao tal. E ele conseguiu ganhar um pequeno empurrão. Por pouco levaria uma surra. Poderiamos estar presos por bater num cidadão. A xenofobia anda por aí.
Contudo, trabalhadores que viram, enquanto concertavam um telhado muito proximo anunciaram em alto e bom tom.

_ Deixa o moço! Que que é isso! Tá drogado!
A nitida anti-xenofobia, o que nos deixa mais aliviados. Era um maluco anti-estrangeiro contra 20 pessoas que percebem que uma pessoa dessas so poderia estar louca.